Início Artigos A história por trás de uma gravidez sem risco
A história por trás de uma gravidez sem risco

A história por trás de uma gravidez sem risco

9
0
* Rodrigo Costa

Ester nasceu com 49,5 cm e 3,445 Kg e pode ser considerada uma legítima bebê Johnson’s. Não, Ester não foi selecionada para nenhuma campanha publicitária de sabonete, shampoo, toalhas umedecidas ou talco. Ela simplesmente nasceu sob a influência de uma moderna política de recursos humanos que beneficiou a família. Explico: há 13 anos a mãe da Ester vem construindo sua carreira em multinacionais da indústria farmacêutica. Como qualquer pessoa que se destaca em cargo executivo, é uma profissional rastreada pelo mercado. Portanto, é natural receber ofertas de emprego, considerado o histórico de desempenho positivo em exercícios e experiências anteriores.

Ester é uma legítima bebê Johnson’s,

beneficiada por uma sólida e moderna política

de recursos humanos.

Sem que estivesse esperando por uma proposta de trabalho, a mãe da Ester foi convidada para ingressar na Johnson & Johnson. Detalhe: o convite veio no terceiro mês de gravidez, o que a surpreendeu. Em matemática simples, a partir do seu ingresso, seriam três meses de ambientação, treinamento e adaptação à nova cultura de negócios; três meses de atuação em campo, sabendo-se das limitações físicas de uma gestante; e seis meses de licença à maternidade. Imaginem só: 12 meses onde o pragmatismo do resultado ficaria em segundo plano. Mesmo em um ambiente altamente competitivo e movido pelos números, a visão estratégica de longo prazo prevaleceu. Ponto para o RH!

50% das mulheres são desligadas do trabalho

em até dois anos após o nascimento dos filhos,

aponta estudo da FGV.

Salvo exceções, a valorização da mulher grávida e/ou com filhos pequenos é um dever social ainda pouco desenvolvido na consciência empresarial. Levantamento da FGV com 247 mil mães, entre 25 e 35 anos, mostra que 10% das mulheres são dispensadas no retorno ao trabalho, logo após a licença maternidade e o fim da proteção legal, e que 50% serão demitidas em até dois anos. Em outras situações, eu diria que a agressão é ainda maior, pois age no extrato psicológico. Converse com uma executiva de banco em plena ascensão e pergunte sobre uma eventual gravidez naquela etapa da vida e da carreira. Você verá no semblante o conflito para a tomada de decisão entre duas vocações, a natural e a de ofício.

A boa notícia é que o cenário tende a mudar na medida em que a ciência resgata a mulher e mãe do descaso corporativo. Estudo liderado pelo neurocientista Craig Kinsley, da Universidade de Richmond (EUA), apontou que um grupo de mulheres, após a maternidade, teve melhor desempenho em testes cognitivos, aumentando a tolerância ao estresse e a capacidade sensorial. Na mesma linha, pesquisa da Microsoft com 2 mil colaboradoras e 500 empresas nos Estados Unidos demonstrou que as mulheres melhoram a performance profissional após a gravidez com o aprimoramento da habilidade de executar multitarefas, trabalhar em equipe e administrar o tempo, relatos comuns em 62%, 57% e 50% das entrevistas.

Neurocientista Craig Kinsley, da Universidade

de Richmond, atesta que, após a maternidade,

as mulheres apresentam melhores resultados

em testes cognitivos.

Tão inusitada quanto a contratação de uma mulher grávida, é ler no credo institucional da J&J os seguintes trechos: Somos responsáveis para com nossos empregados, homens e mulheres que conosco trabalham em todo o mundo… Devemos respeitar sua dignidade e reconhecer seus méritos. Eles devem sentir-se seguros em seus empregos… Devemos ter em mente maneiras de ajudar nossos empregados a atender às suas responsabilidades familiares. Mais um ponto para o RH, que humanizou as relações entre a empresa e os colaboradores.

Não possuo qualquer vínculo funcional com a Johnson & Johnson, além do comportamento de consumidor das marcas. Mas fato é que essa história é um contraponto ao rígido modelo de gestão de pessoas da maioria das empresas. Simbolicamente, quiçá a pequena Ester possa inspirar uma reflexão em torno das políticas corporativas de proteção, valorização e incentivo às mulheres, assim como fez outra Ester, personagem bíblica que chamou a atenção do rei persa Assuero para o futuro do povo judeu. Tenho fé!

………………………………………………………………………………………………………………………………….

Rodrigo Costa é tio da Ester. Também atua como estrategista e executivo de marketing com experiência nas áreas de bens de consumo, educação, esportes, logística, tecnologia da informação e telecomunicações. É sócio da RC Marketing e Consultoria.

(9)

Brazil Conference Harvard

Deixe o seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

COLUNAS EM DESTAQUE