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Você está preparado para ser sócio de uma empresa familiar?

Você está preparado para ser sócio de uma empresa familiar?

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*Mauro Takahashi Mori

Após anos de consultoria para empresas familiares, constatei que a principal preocupação dos fundadores se refere à mudança “suave” e organizada do controle empresarial para gerações subsequentes. Realmente essa é uma preocupação de extrema relevância para a longevidade dos negócios, mas é comum que os empresários se esqueçam (ou desconheçam) da relevância de se implementar políticas de boas práticas de governança corporativa voltadas especialmente para empresas familiares.

Diversos são os princípios e as políticas de governança que podem ser aplicados a cada empresa, observadas suas especificidades e culturas, como, por exemplo, elaboração de um protocolo familiar, criação de um conselho de família, capacitação dos herdeiros e a transparência por parte das empresas, dentre outros. A capacitação dos herdeiros e a transparência são de suma relevância para a perenidade dos negócios, pois a falta desses geralmente resulta em desconfiança e insatisfação por parte dos sócios não gestores, tentativas de interferência na gestão da empresa e muitas vezes disputas judiciais custosas e longas que podem levar a empresa à bancarrota.

Em muitas empresas familiares, alguns herdeiros são desde muito cedo preparados para ocupar a posição do fundador, ou seja, de gestor dos negócios. Enquanto outros herdeiros são alijados do ambiente empresarial. E aí reside a origem para uma das principais insatisfações em empresas familiares.

Certamente que nem todos os herdeiros têm a aptidão ou mesmo a intenção de suceder o fundador na condução dos negócios da empresa, mas fato é que todos os herdeiros poderão ser, no mínimo, sócios da empresa familiar e, portanto, devem ser capacitados para que se tornem sócios responsáveis e interessados nos negócios.

Mas o que significa ser um sócio responsável? Geralmente, quando pensamos na figura de um sócio herdeiro, temos a ideia glamourosa (mas equivocada) de que esse usufrui apenas das benesses de seus direitos de voto e de recebimento de lucros. Mas fato é que esse direito de voto traz consigo muita responsabilidade, principalmente em uma empresa familiar, onde cada voto costuma ter um peso muito relevante (em comparação às grandes companhias abertas com capital pulverizado).

Vale lembrar que, por trás (ou acima) dos interesses dos sócios, há a função social da empresa, que deve ser preservada. A empresa, além de ser a fonte de sustento para muitas famílias (às vezes milhares), incluindo empregados, fornecedores, clientes, prestadores de serviços, diversas vezes é catalizadora do desenvolvimento de uma determinada região, pois ao seu redor surgem comércios, residências, escolas etc. que dela dependem para sobreviver.

Certamente que não se sugere que os sócios abram mão de exercer seus direitos, mas apenas que os exerçam sempre levando em consideração o melhor interesse da empresa e o impacto social por ela causado, e não como armas para conflitos familiares.

E qual o interesse da empresa nesse processo? É do maior interesse da empresa auxiliar os sócios não gestores nesse processo de capacitação, pois sócios responsáveis podem ser essenciais para a sobrevivência dos negócios. Para tanto, a empresa deve atuar de forma transparente perante os sócios não gestores por meio da divulgação tempestiva de informações sobre os negócios, reuniões periódicas entre os administradores e os referidos sócios, organização de visitas guiadas às instalações das empresas, explicações sobre os impactos sociais causados pela empresa etc., enfim, permitir que os sócios não gestores conheçam e se sintam parte da empresa.

A transparência e o engajamento são importantes inclusive em momentos de turbulência (e com pouca ou nenhuma distribuição de resultado), pois ao conhecer a dificuldade enfrentada pela empresa, o sócio não gestor tende a compreender (e quem sabe ajudar?) ao invés de simplesmente desconfiar.

E como dar início ao processo de governança corporativa em uma empresa familiar?

O primeiro passo é geralmente o mais difícil, pois é justamente entender como boas práticas de governança podem ajudar na perpetuidade dos negócios familiares.

Um bom começo é buscar mais informações por meio de cursos voltados especialmente para formação de herdeiros de empresas familiares e da participação de grupos compostos apenas por tais pessoas, nos quais esses podem trocar e debater suas experiências. Mas cuidado! Assim como nenhuma família é igual a outra, as empresas familiares tampouco são idênticas!

Por isso é importante consultar profissionais especializados aptos a analisar e a entender os anseios e as características de cada família e de seus negócios. O estudo para implementação de políticas de boas práticas de governança corporativa deve ser realizado em conjunto com a análise de aspectos jurídicos relacionados ao direito de família e de sucessões e pode, ainda, demandar a elaboração de estruturas societárias (ex. constituição de empresas, reformulação de contratos / estatutos sociais, elaboração de acordos de acionistas, criação de órgãos como conselho de administração etc.) e a análise de efeitos (ex. fiscais) decorrentes da nova estrutura.

Por fim, é importante que se tenha em mente que a implementação de boas práticas de governança corporativa não é um processo rápido e de prazo determinado, mas sim um processo constante, cujo aperfeiçoamento se dá de forma contínua conforme a etapa da vida da empresa e de seus sócios.

*Mauro Takahashi Mori, é sócio da área de societário do escritório Machado Associados. Atua em Societário, Governança Corporativa e Familiar, Mercado de Capitais, Fusões e Aquisições e Contratos. Com consistente experiência em companhias de capital aberto e instituições financeiras.

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